quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Tempo Marcado

charset=utf-8">

A chave girou na fechadura lentamente, lá fora o sol já havia nascido a cerca de meia hora mais ou menos, a porta foi empurrada lentamente e alguns minutos depois, o caçador de monstros entrou.

Trazia sua jaqueta pendurada sobre o ombro e as pistolas carregadas com balas de prata presas ao cinto, duas automáticas gêmeas, o pesadelo de qualquer vampiro, lobisomem ou outra criatura sobrenatural que tive-se o azar de cruzar seu caminho, hoje havia abatido uma gangue inteira de sangue sugas e se sentia de certa forma, realizado espiritualmente.

Por mais que tenta-se, ele nunca conseguia parar de sonhar, noite após noite com o massacre da sua banda e da sua namorada, vitimas de um vampiro faminto, aquilo fora a muito tempo atrás, um passado quase ínfimo, mas ele revivia em sonhos tudo de novo, e não era raro que acorda-se gritando dentro do apartamento fechado, durante a tarde, ele caçava a madrugada inteira e dormia de dia, essa era sua rotina.

Trancou a porta e foi direto para o quarto, estava realmente sem nenhuma força mais, tanto que quando atingiu seu objetivo se limitou a tirar a camisa,soltar o cinto com as pistolas e cair de cara na cama, apagando imediatamente, um sono sem sonhos, dormiu só por dormir.

Acordou sobre saltado, sentiu algo de diferente na atmosfera do local, virou a cabeça para os lados assustado e então percebeu um movimento estranho próximo a cômoda onde ficavam seus documentos, seu corpo se inclinou para frente e rápido como um raio ele já tinha a arma na mão, engatilhada e apontada, o barulho silenciara e ele disse de forma rígida “quem é?”.

“Não atire por favor” foi a resposta que ele escutou, mas algo o surpreendeu naquilo, sua segurança afrouxou, era um voz ínfima, quase inaudível de tão fininha, e parecia vir do chão, bem do chão, por uns instantes ele pensou que era só sua imaginação, mas não confiou totalmente, “apareça estou mandando”.

Então a dona da voz surgiu, saiu debaixo da cômoda lentamente, ele prendeu o ar assustado, nunca havia visto algo daquilo, a arma abaixou quase que instantaneamente e ele se limitou a observar surpreso.

Ali dentro do seu quarto, havia uma pequena mulher, pequena mesmo pois sua estatua não deveria chegar aos 30 centímetros no Maximo, tinha cabelos longos e negros, quase ate a cintura e uma pele extremamente branca, beirando a palidez, trajava um vestido de um negro ainda mais intenso que os cabelos, lembrava uma pequena boneca, o único detalhe que destoava disso eram um par de asas em suas costas, iguais a de uma borboleta, elas possuíam varias cores misturadas e todas eram de tom escuro.

“Quem é você?” ele perguntou, já havia visto e ouvido falar de muitas criaturas de outros planos, mas no momento nenhum lhe vinha a cabeça que bate-se com a descrição daquilo ali, não parecia ameaçadora de certa forma, mas as vampiras conseguiam ser extremamente sensuais antes de chupar sua vida por suas veias.

“Eu sou uma fada” ela respondeu como se isso fosse a coisa mais normal do mundo na hora “não vou te fazer mal, me desculpe, eu vim parar por acidente eu...” ela fez outra pausa e pareceu pensar em algo quando emendou “já vou embora”.

Ela fez menção de se virar, mas ele a parou, disse para que fica-se e se explica-se, o que estava havendo e quais eram sua intenções, no inicio a fada parecia relutante, passou as mãos nos longos cabelos, mas por fim cedeu e lhe contou tudo, ela disse que vivia com outras fadas em um local escondido para as outras espécies, lá elas podiam se dedicar aos mistérios da natureza e trabalhar com o que mais gostavam, poções e formulas de sentimentos.

A fada contou que á muito tempo às fadas trabalhavam em um tipo de formula que explicaria a capacidade dos seres de viverem o mesmo com freqüência e gostar disso, se acostumar, ela defendia a idéia de que essa auto-aceitação partia de pequenos prazeres que os atos proporcionavam, mas não podia ficar só em palavras.

Ela havia abandonado o esconderijo coletivo e adentrado de forma corajosa e imprudente o mundo humano, iria começar a pesquisar parte por parte tudo isso, para depois retornar com as respostas.

O caçador ouviu atentamente sua historia, parte de si mesmo lhe mandava atirar nela, ele acreditava que o mundo era somente de seres humanos, mas por outro lado não conseguia, algo o bloqueava, ele perguntou quanto tempo levaria aquilo e ela respondeu que não poderia demorar, pois quando uma fada vem ao mundo humano, só pode ficar 1 semana no Maximo, se exceder esse tempo, ela morre, a fada comentou que conhecia algumas que haviam conseguido se adaptar e sobreviver no mundo humano, mas eram casos raros e ela mesma não pretendia se demorar mais do que uns 3 dias.

O homem pensou no caso profundamente, quando resolvera começar a matar seres das trevas, fizera aquilo com o sentimento de ajudar unicamente a humanidade, mas sabia que não bastava ser bom apenas com um tipo, deveria ser bom com todos que merecessem.

“Vou ajudar você com sua pesquisa”, ele anunciou e ela sorriu alegre, “vamos fazer algumas coisas que as pessoas gostam de fazer e você vai tirar suas pro pias conclusões, ela deu pequenos saltinhos de alegria e perguntou quando poderiam começar”.

O homem se arrumou e ambos saíram, era de dia e ele saiu pouco equipado, levou a pequena fada consigo no bolso, e ela lá de dentro com sua cabeça de fora observava todos, em sua rotina e suas alegrias, começaram com algo banal, tomaram um sorvete.

A fada adorou.

Disse que nunca havia provado algo daquele tipo e que a partir de agora iria querer comer somente aquilo enquanto estive-se ali, ele sorriu e pagou mais um, comeu 3 casquinhas de flocos antes de ficar enjoada, levou ela para ver um filme de romance e de ação no cinema e quando a noite estava chegando, eles foram a um parque de diversões.

Daquela vez ele não caçou.

E assim foram seguindo os dias, ambos tomavam sorvete juntos, se divertiam no que queriam fazer e nesse meio tempo ele explicava para ela sobre os empregos e as necessidades básicas das pessoas, como tudo funcionava, os sentimentos e reações alheias e ela ouvia tudo com uma atenção exemplar, quase sempre com um pouco de flocos na mão.

Tudo aquilo de certa forma fez bem ao caçador, pela primeira vez ele se sentia bem, se sentia em paz consigo mesmo, sentiu que podia ser feliz de novo de uma forma simples e não mergulhado em sangue e dor como se acostumara.

6 dias se passaram.

O homem já não caçava a tempos e sentia os monstros se multiplicando mais e mais, mas não conseguia tomar nenhuma providencia, sua atenção era toda da fada, para ajuda-la e vê-la sorrir, na noite do 6° dia, ambos estavam de frente para a praia, sentados na areia, ela estava sobre o joelho dobrado, silenciosos os dois, apenas a olhar a imensidão de água, ela se virou para e levitou ate o ombro, passou a mão nos cabelos longos do caçador e disse.

“Seus cabelos são lindos, queria poder leva-los comigo quando me for”.

Ele não respondeu, em nenhum momento lembrara que ela tivera que partir, pos as mãos sobre os joelhos e disse, “falta pouco tempo para você ir não é?” ela concordou com a cabeça pensativa e disse “mas jamais esquecerei tudo que aprendi aqui, nunca mesmo, obrigado por tudo”.

Eles ficaram quietos sobre a noite quando de repente ela explodiu, “droga”, ele se virou surpreso e a viu chorar sem parar, caiu sentada sobre o ombro dele e pos as mãos no rosto chorando, ele ergueu a mão para toca-la quando ela começou a gritar.

“por que eu não poderia ter nascido humana também? Por que tem que ser assim hein? Por que vamos nos separar? Eu não quero ir, eu queria ficar e fazer isso com você”

Ela parou e o observou nos olhos marejados, “fazer isso com você sempre e sempre, por que você e uma pessoa muito especial para mim”, ele não conseguiu disser nada, virou o rosto e olhou novamente para o mar, não queria chorar, não queria mesmo, ate ouviu ela disser.

“Eu te amo, te amo muito”.

Ele virou o rosto para ela surpreso e então a fada pediu, “me beija?”, ele esticou seu pescoço levemente e os lábios de proporções diferentes se tocaram de forma suave por alguns instantes, quando se separaram ela o olhou, suas mãozinhas deslizaram pelo rosto dele e ela disse de forma decidida.

“Eu não vou embora amanha, eu penso que as fadas que ficaram e se adaptaram, não foi por força, foi por que acharam um grande motivo para permanecer em meio aos humanos, eu tenho você, meu grande motivo e meu amor, não vou morrer, sinto isso!”

“Sim talvez você sobreviva” ele disse pensativo “eu te amo também”.

“Então me beije de novo!” ela pediu.

Os lábios se tocaram de novo e dessa vez foi por mais tempo e quando se afastaram ela abraçou o rosto dele e disse sorrindo de forma meiga, “sim, vale a pena correr o risco”.

Alguns dias depois, o caçador entrou em uma pequena casinha num bairro pobre, lá dentro um de seus fornecedores de informações o esperava, ambos conversaram e depois que ele conseguiu o que queria, se preparou para sair quando o homem disse, “sabe você andou estranho, primeiro sumiu por alguns dias, os monstros se multiplicaram na ausência sabe? e agora isso ai é?”.

Ele não respondeu, saiu e se sentou na garupa da moto, mas quando fez isso, seus olhos se encheram de lagrimas e ele chorou sem conseguir se conter, de dor e de tristeza.

Em algum lugar, abaixo de uma arvore, uma trança de cabelo balançava ao vento, como se dança-se uma valsa.

Um comentário:

. Λmitiεſ . disse...

A história que você me contou no Balneario *_*
Como é linda, um dos melhores contos que eu já li.
Dava um filme, um bom filme.
De verdade Hideki :)

Amo você. ♥